09.11.09
– Crônica sem título –
Um dia, alimentando meus passarinhos, vi uns dois ou três pardais na calçada, tentando ciscar no cimento alguma coisa para comer. Pensei “Passarinhos de raça como meus coleiras e canários não suportariam uma desproteção dessas”. Fiquei com pena e joguei um punhadinho de alpiste que restava na sacola para os pardais. No dia seguinte, estavam lá, mas eram uns oito ou dez. Joguei os restos de canjiquinha do fundo da gaiola – que acabara de limpar – para eles. Ao final de duas semanas, encontrei, sobre os caibros da varandinha, dois ninhos de pardal, apinhados de ovos. Eles se multiplicavam à porta da minha casa, embora, algumas vezes, eu já não tivesse o que lhes dar. E começaram os problemas. De vez em quando, encontrava um bocado daqueles bichinhos vira-lata dependurado nas minhas gaiolas, beliscando os cantinhos para roubar a comida dos coleiras. De tão assustado, o canário-da-terra nem cantava mais. Havia titica em todos os cantos da varanda e da área de serviço. Estava enfurecido com a situação: aquelas avezinhas infestando meu silêncio com suas revoadas , assustando meus pássaros, estragando a higiene e causando poluição visual do meu espaço , enfim, invadindo minha privacidade. Mudei-me dali para o centro da cidade e desisti de criar passarinhos.
Um dia, depois de deixar minha filha na escola, fui abordado por um menino de rua, que me pedia um trocado. Pensando nas diferenças de condições entre ele e a minha filha, que acabara de saltar do carro para a confortável escola particular em que estuda, cheguei a levar a mão ao bolso. Mas não dei esmola, lembrei-me dos passarinhos.
Luna Fernandes
01.01.09
A paixão
Daquela varanda ela assistia perfeitamente às cerimônias. É verdade que ali, por ser mui alto, sentia-se toda aquela calidez incômoda todos aqueles eflúvios do corpo humano viciando o ar e subindo invisivelmente a enrubescer-lhe a tez e a perseguir-lhe o nariguinho afilado; mas por is: o mesmo estava constantemente a agitar o seu grande leque de seda, que afastava-se e aproximava-se do seu coração como uma enorme borboleta negra.
Havia claridade pouca, suficiente porém para o livro da semana santa poder espelhar-se no olhar calmo e profundo e inocente, as carreirinhas de tipos muito negrinhos no papel branco.
Todavia, a falar verdade, aquelas palavras não podiam despertar-lhe idéia alguma, visto como em um só peito não se podem abrigar dois amores ao mesmo tempo, pela lei física da impenetrabilidade.
E assim, descansava o olhar, que era o veículo por onde o seu espírito mais se impressionava, percorrendo vagamente o grande todo do templo. Tudo era vendado.
A vidraçaria pintada do coro impregnava de palor os lados do imenso vulto escuro do órgão. Os cantores, de preto, arrumavam-se entre os fiéis que invadiam o recinto a eles reservado, e nem o pavilhão do oficlide brilhava com o seu reflexo de arame.
De um lado, ali no coro, muito no sombrio, aglomeravam-se em ordem as educandas do colégio, e via-se o chapéu das irmãs de caridade, como grandes aves que querem voar. A ordem superior de varandas, bilateralmente, estava repleta; e a inferior, com os seus balaústres brancos e o seu coreto de linhas de cadeiras ascendentes.
Era como num teatro em que houvesse enchente à cunha.
As grossas colunas da nave pareciam caçapar-se ao peso das paredes altíssimas.
Grandes véus negros encobriam as duas capelas colaterais. Nas aras ardiam velas de cera de um amarelo sombrio e cru, em castiçais pretos, e cada nicho estava transformado numa janela escura.
O doirado das obras de talha destacava-se apenas, bordando o custoso emolduramento dos altares, como uns longínquos luzimentos mundanos.
Lá dentro da capela-mor as janelas de varandas auribrancas estavam penumbreadas. Do enorme pano que tocava no teto e erguia-se ao fundo do templo sentia-se baforar toda aquela escuridão que se equilibrava no ar, e dilatava-se por todos os cantos. O mármore róseo do arco da capela-mor abria um íris sobre aquela nuvem negra; e lá no tapete multicolorido, os padres, uns de batina e sobrepeliz de rendas, outros de alva e casulas cor do sol, diziam segredos em voz alta, ora paravam, ora iam, ora vinham, ora assentavam, misteriosos, vagarosamente, lendo em grandes livros, queimando incenso, e soltando para o espaço, como aves negras, umas após outras, as notas tristes do cantochão. A fumacinha como prateada do incenso perdia-se logo.
Algumas vezes punham a mitra, depois de beijá-la, sobre a fronte encanecida do diocesano, e este levantava-se com o seu rico cajado de ouro. Aparecia, às vezes, com o seu roquete de finíssimo bordado, com a batina roxa, e a sua murça que lhe dava uns ares reverentes, e o grosso trancelim com a cruz cravejada caindo sobre o peito e o seu anel de esposo da igreja; às vezes com pesadas capas de rei, com púrpura e arminhos; às vezes com a longa santidade das vestimentas pontifícias.
Mas o sentimento dos fiéis não estava geralmente para esse recinto dos sanctus sanctorum, para o simbólico erudito das cerimônias, para a piedade do ato. Dentre aquela multidão a mais não poder, com o espírito lia-se os espíritos na direção ou no vago das pupilas, na atitude dos ouvidos, nos lábios em sorriso, em conversação, ou em recolhimento, na fronte, no porte, no todo compungido ou disfarçado, religioso ou mundano.
Da capela do Sacramento ouvia-se o bater de um martelo, ensurdecido, acolchoado e, de quando em vez, a rangedeira abafada de uns passos cautelosos. Naturalmente, preparos de novas cerimônias.
Grunhiam os pesados gonzos de uma larga porta sumida num dos corredores, entrando ou saindo alguém, e um jato de claridade franca e diurna despejava-se pela igreja. Depois voltava o escuro.
Nas altíssimas janelas da nave, que dão para cima dos telhados, o dia salpicava apenas pela fímbria dos tristes véus pretos, e ornava de estrelas os buraquinhos do pano. Pedacinhos de claridade caíam esfarinhados na parede. O órgão às vezes mugia, às vezes balava ou soluçava e gemia, acompanhado pelo violoncelo, pelo oficlide, pela flauta e pelo delgado violino penetrante sob o grosso esvoaçar das vozes dos cantores.
Era uma provocação desabrida para as lágrimas.
E, enfim, no púlpito suspenso na parede, cujo caiamento parecia repassado do esfuminho,apareceu o padre, um rapaz gordo, alvo, risonho, fazendo muito por tornar-se carrancudo, com as largas mangas de seu roquete caindo sobre a toalha que arrodeava o corpo da tribuna.
Virou-se para o santuário e persignou-se largamente.
E, depois, com as duas mãos nas bordas do púlpito, debruçando-se para o auditório, começou, alto e pausado e vibrante:
— Et inclinato capite… tradidit spiritum!…
E toda aquela multidão distribuída e apinhada pelos corredores, pelas varandas, pelo coro, pelo corpo da igreja, pelo pé dos altares, por todos os cantos, prestou olhos e ouvidos.
O pregador se destacava bem. Um pouco acima de seus cabelos crespos ficava o alto da porta, ornado de um frontão que despedia uma auréola, como um sol desabrolhando. O corpo da tribuna findava em uma maçaneta, para baixo, como um cacho de uvas de ouro atado à ponta de uma cortina. E todos olhavam para cima, e o padre continuava na placidez da sagrada eloqüência.
De quando em vez saía-lhe como um raio trêmulo, como uma faísca elétrica entre os rebordos das nuvens aclarados e escurecidos momentaneamente.
E prosseguia a chuva abundante da palavra de Deus.
Como a terra ensopa com o inverno e faz nascerem as sementes no agreste, assim as almas estremunhavam, acordavam e, metidas no sombrio, na luz coada, no morno, despertavam da carne pecaminosa e esterilizada…
Em dado momento, apareceu nas mãos do pregador uma tela pendurada, um lençol branco e nele estampada a imagem de um homem despido, com uma toalha nos rins.
E, em lágrimas, num trêmulo crescente, a mão vacilante, cheio de dor, o padre murmurava choroso:
— “Ei-lo, ei-lo, o vosso pai, o vosso amigo, o vosso irmão, o vosso Jesus… ei-lo… assim maltratado, assim golpeado… Esta cabeça cheia de ciência, rasgada por uma coroa de espinhos; este coração fonte do amor, atravessado por uma lança; estes joelhos, que só se dobraram para levantar os mortos e curar os enfermos, descarnados até os ossos; estas mãos repassadas de divino eflúvio, esmagadas barbaramente por duros cravos; estes pés, que palmilharam sobre as ondas, conjuntamente arrepelados e arrebentados por um cravo dilacerante; estes ombros… estes ombros, vede-os cristãos, vede-os, como ficaram no peso da cruz… vede-os…”
E a mor parte dos fiéis soluçava… Já não se via aquele contínuo e embastido movimento de leques pela superfície da multidão. Ouvia-se um guincho de uma mulher nervosa e o assoar do bendito muco do choro santo…
Sentia-se uma consternação inexprimível.
Eu ajoelhava prostrado ante a divina figura do Mestre e o meu olhar trespassava-lhe também o coração fonte do amor. Mísero pecador, sumido na multidão, quisera que me visse, que soubesse que eu lhe quero bem. E parecia-me de seu peito cair o sangue tão puro e verdadeiramente como caiu no Calvário. Eu tinha vontades de lhe gritar — Eu te amo porque tu sofres!
Entretanto, senti que no coração dele também outro olhar estava abrigado, e que o meu espírito, que lá estava, pergunta: — Que quereis? E quase o outro olhar me pergunta o mesmo.
Inquirimo-nos, entretanto, conjuntamente: — Aqui não é a fonte do amor?
E as duas almas, feitas uma para a outra, encontradas lá dentro do coração de Jesus, disseram-se: — Bebamos, pois, da fonte do amor!…
O padre continuava, mas nós não entendíamos. O meu corpo inane caía cada vez mais sobre os joelhos, numa adoração profundíssima. E do sudário desaparecera o Jesus sanguinolento, para pintar-se ela com o seu vestidinho preto e as suas pulseiras de ouro, a olhar-me para meu coração soluçante.
O padre me apontava era para os lábios mudos de sentimento, e para sua fronte livre de pesadumbres. E gritava-nos: — Amai, arrependei-vos do tempo perdido…
E eu apertava o meu peito com as duas mãos.
E adormecido, entorpecido, ignorante, alheio, tomado de dor e de ventura, ouvi as últimas palavras: et tradidit spiritum… e entregou o seu espírito.
Manoel de Oliveira Paiva
11.22.08
O avião da Bela Adormecida
Era ela, elástica, com uma pele suave da cor do pão e olhos de amêndoas verdes, e tinha o cabelo liso e negro e longo até as costas, e uma aura de antiguidade que tanto podia ser da Indonésia como dos Andes. Estava vestida com um gosto sutil: jaqueta de lince, blusa de seda natural com flores muito tênues, calças de linho cru, e uns sapatos rasos da cor das buganvílias. “Esta é a mulher mais bela que vi na vida”, pensei, quando a vi passar com seus sigilosos passos de leoa, enquanto eu fazia fila para abordar o avião para Nova York no aeroporto Charles de Gaulle de Paris. Foi uma aparição sobrenatural que existiu um só instante e desapareceu na multidão do saguão.
Eram nove da manhã. Estava nevando desde a noite anterior, e o trânsito era mais denso que de costume nas ruas da cidade, e mais lento ainda na estrada, e havia caminhões de carga alinhados nas margens, e automóveis fumegantes na neve. No saguão do aeroporto, porém, a vida continuava em primavera.
Eu estava na fila atrás de uma anciã holandesa que demorou quase uma hora discutindo o peso de suas onze malas. Começava a me aborrecer quando vi a aparição instantânea que me deixou sem respiração, e por isso não soube como terminou a polêmica, até que a funcionária me baixou das nuvens chamando minha atenção pela distração. À guisa de desculpa, perguntei se ela acreditava nos amores à primeira vista. “Claro que sim”, respondeu. “Os impossíveis são os outros” Continuou com os olhos fixos na tela do computador, e me perguntou que assento eu preferia: fumante ou não-fumante.
— Dá na mesma — disse categórico — desde que não seja ao lado das onze malas.
Ela agradeceu com um sorriso comercial sem afastar a vista da tela fosforescente.
— Escolha um número — me disse. — Três, quatro ou sete.
— Quatro.
Seu sorriso teve um fulgor triunfal.
— Nos quinze anos em que estou aqui — disse —, é o primeiro que não escolhe o sete.
Marcou no cartão de embarque o número do assento e me entregou com o resto de meus papéis, olhando-me pela primeira vez com uns olhos cor de uva que me serviram de consolo enquanto via a bela de novo. Só então me avisou que o aeroporto acabava de ser fechado e todos os vôos estavam adiados.
— Até quando?
— Só Deus sabe — disse com seu sorriso. O rádio avisou esta manhã que será a maior nevada do ano.
Enganou-se: foi a maior do século. Mas na sala de espera da primeira classe a primavera era tão real que havia rosas vivas nos vasos e até a música enlatada parecia tão sublime e sedante como queriam seus criadores. De repente pensei que aquele era um refúgio adequado para a bela, e procurei-a nos outros salões, estremecido pela minha própria audácia. Mas na maioria eram homens da vida real que liam jornais em inglês enquanto suas mulheres pensavam em outros, contemplando os aviões mortos na neve através das janelas panorâmicas, contemplando as fábricas glaciais, as vastas plantações de Roissy devastadas pelos leões. Depois do meio-dia não havia um espaço disponível, e o calor tinha-se tornado tão insuportável que escapei para respirar.
Lá fora encontrei um espetáculo assustador. Gente de todo tipo havia transbordado as salas de espera e estava acampada nos corredores sufocantes, e até nas escadas, estendida pelo chão com seus animais e suas crianças, e seus trastes de viagem. Pois também a comunicação com a cidade estava interrompida, e o palácio de plástico transparente parecia uma imensa cápsula espacial encalhada na tormenta. Não pude evitar a idéia de que também a bela deveria estar em algum lugar no meio daquelas hordas mansas, e essa fantasia me deu novos ânimos para esperar.
Na hora do almoço havíamos assumido nossa consciência de náufragos. As filas tornaram-se intermináveis diante dos sete restaurantes, as cafeterias, os bares abarrotados, e em menos de três horas tiveram de fechar tudo porque não havia nada para comer ou beber. As crianças, que por um momento pareciam ser todas as do mundo, puseram-se a chorar ao mesmo tempo, e começou a se erguer da multidão um cheiro de rebanho. Era o tempo dos instintos. A única coisa que consegui comer no meio daquela rapina foram os dois últimos copinhos de sorvete de creme numa lanchonete infantil. Tomei-os pouco a pouco no balcão, enquanto os garçons punham as cadeiras sobre as mesas na medida em que elas se desocupavam, olhando-me no espelho do fundo, com o último copinho de papelão e a última colherzinha de papelão, e com o pensamento na bela.
O vôo para Nova York, previsto para as onze da manhã, saiu às oito da noite. Quando finalmente consegui embarcar, os passageiros da primeira classe já estavam em seus lugares, e uma aeromoça me conduziu ao meu. Perdi a respiração. Na poltrona vizinha, junto da janela, a bela estava tomando posse de seu espaço com o domínio dos viajantes experientes. “Se alguma vez eu escrever isto, ninguém vai acreditar”, pensei. E tentei de leve em minha meia língua um cumprimento indeciso que ela não percebeu.
Instalou-se como se fosse morar ali muitos anos, pondo cada coisa em seu lugar e em sua ordem, até que o local ficou tão bem-arrumado como a casa ideal, onde tudo estava ao alcance da mão. Enquanto fazia isso, o comissário trouxe-nos o champanha de boas-vindas. Peguei uma taça para oferecer a ela, mas me arrependi a tempo. Pois quis apenas um copo d’água, e pediu ao comissário, primeiro num francês inacessível e depois num inglês um pouco mais fácil, que não a despertasse por nenhum motivo durante o vôo. Sua voz grave e morna arrastava uma tristeza oriental.
Quando levaram a água, ela abriu sobre os joelhos uma caixinha de toucador com esquinas de cobre, como os baús das avós, e tirou duas pastilhas douradas de um estojinho onde levava outras de cores diversas. Fazia tudo de um modo metódico e parcimonioso, como se não houvesse nada que não estivesse previsto para ela desde seu nascimento. Por último baixou a cortina da janela, estendeu a poltrona ao máximo, cobriu-se com a manta até a cintura sem tirar os sapatos, pôs a máscara de dormir, deitou-se de lado na poltrona, de costas para mim, e dormiu sem uma única pausa, sem um suspiro, sem uma mudança mínima de posição, durante as oito horas eternas e os doze minutos de sobra que o vôo de Nova York durou.
Foi uma viagem intensa. Sempre acreditei que não há nada mais belo na natureza que uma mulher bela, de maneira que foi impossível para mim escapar um só instante do feitiço daquela criatura de fábula que dormia ao meu lado. O comissário havia desaparecido assim que decolamos, e foi substituído por uma aeromoça cartesiana que tentou despertar a bela para dar-lhe o estojo de maquiagem e os auriculares para a música. Repeti a advertência que a bela havia feito ao comissário, mas a aeromoça insistiu para ouvir de sua própria voz que tampouco queria jantar. Foi preciso que o comissário confirmasse, e ainda assim a aeromoça me repreendeu porque a bela não havia colocado no pescoço o cartãozinho com a ordem de não ser despertada.
Fiz um jantar solitário, dizendo-me em silêncio tudo que teria dito a ela, se estivesse acordada. Seu sono era tão estável que em certo momento tive a inquietude que aquelas pastilhas não fossem para dormir e sim para morrer. Antes de cada gole, levantava a taça e brindava.
— À tua saúde, bela.
Terminado o jantar, apagaram as luzes, mostraram um filme para ninguém, e nós dois ficamos sozinhos na penumbra do mundo. A maior tormenta do século havia passado, e a noite do Atlântico era imensa e límpida, e o avião parecia imóvel entre as estrelas. Então contemplei-a palmo a palmo durante várias horas, e o único sinal de vida que pude perceber foram as sombras dos sonhos que passavam por sua fronte como as nuvens na água. Tinha no pescoço uma corrente tão fina que era quase invisível sobre sua pele de ouro, as orelhas perfeitas sem os furinhos para brincos, as unhas rosadas da boa saúde e um anel liso na mão esquerda. Como não parecia ter mais de vinte anos, me consolei com a idéia de que não fosse a aliança de um casamento e sim de um namoro efêmero. “Saber que você dorme, certa, segura, leito fiel de abandono, linha pura, tão perto de meus braços atados”, pensei, repetindo na crista de espuma de champanha o soneto magistral de Gerardo Diego.
Em seguida estendi a poltrona na altura da sua, e ficamos deitados mais próximos que numa cama de casal. O clima de sua respiração era o mesmo da voz, e sua pele exalava um hálito tênue que só podia ser o próprio cheiro de sua beleza. Eu achava incrível: na primavera anterior havia lido um bonito romance de Yasumari Kawabata sobre os anciões burgueses de Kyoto que pagavam somas enormes para passar a noite contemplando as moças mais bonitas da cidade, nuas e narcotizadas, enquanto eles agonizavam de amor na mesma cama. Não podiam despertá-las, nem tocá-las, e nem tentavam, porque a essência do prazer era vê-las dormir (1). Naquela noite, velando o sono da bela, não apenas entendi aquele refinamento senil, como o vivi na plenitude.
— Quem iria acreditar — me disse, com o amor-próprio exacerbado pelo champanha. — Eu, ancião japonês a estas alturas.
Acho que dormi várias horas, vencido pelo champanha e os clarões mudos do filme, e despertei com a cabeça aos cacos. Fui ao banheiro. Dois lugares atrás do meu, jazia a anciã das onze maletas esparramada mal-acomodada na poltrona. Parecia um morto esquecido no campo de batalha. No chão, no meio do corredor, estavam seus óculos de leitura com o colar de contas coloridas, e por um instante desfrutei da felicidade mesquinha de não os recolher.
Depois de desafogar-me dos excessos de champanha me surpreendi no espelho, indigno e feio, e me assombrei por serem tão terríveis os estragos do amor. De repente o avião foi a pique, ajeitou-se como pôde, e prosseguiu voando a galope. A ordem de voltar ao assento acendeu. Saí em disparada, com a ilusão de que somente as turbulências de Deus despertariam a bela, e que teria de se refugiar em meus braços fugindo do terror. Na pressa estive a ponto de pisar nos óculos da holandesa, e teria me alegrado. Mas voltei sobre meus passos, os recolhi, os coloquei em seu regaço, agradecido de repente por ela não ter escolhido antes de mim o assento número quatro.
O sono da bela era invencível. Quando o avião se estabilizou, tive que resistir à tentação de sacudi-la com um pretexto qualquer, porque a única coisa que desejava naquela última hora de vôo era vê-la acordada, mesmo que estivesse enfurecida, para que eu pudesse recobrar minha liberdade e talvez minha juventude. Mas não fui capaz. “Que merda”, disse a mim mesmo, com um grande desprezo. “Por que não nasci Touro?” Despertou sem ajuda no instante em que os anúncios de aterrissagem se acenderam, e estava tão bela e louçã como se tivesse dormido num roseiral. Só então percebi que os vizinhos de assento nos aviões, como os casais velhos, não se dizem bom-dia ao despertar. Ela também não.
Tirou a máscara, abriu os olhos radiantes, endireitou a poltrona, pôs a manta de lado, sacudiu as melenas que se penteavam sozinhas com seu próprio peso, tornou a pôr a caixinha nos joelhos, e fez uma maquiagem rápida e supérflua, o suficiente para não olhar para mim até que a porta foi aberta. Então pôs a jaqueta de lince, passou quase que por cima de mim com uma desculpa convencional em puro castelhano das Américas, e foi sem nem ao menos se despedir, sem ao menos me agradecer o muito que fiz por nossa noite feliz, e desapareceu até o sol de hoje na amazônia de Nova York.
Gabriel García Márquez – Junho de 1982.
- O romance que o autor fala é “A casa das belas adormecidas” de Yasunari Kawabata. O escritor foi premiado com o Nobel de Literatura em 1968.
11.02.08
Bebida para viúvo
Se foi esse o desgosto que matou Dona Benvinda, ninguém sabe: o que é fato, é que o sr. Atanásio tinha uma predileção especial pelas bebidas, a ponto de passar semanas inteiras emendando as carraspanas.
O que, entretanto, ninguém pode contestar, é que ele adorava a mulher. É verdade que não a obedecia, quando ela lhe suplicava, agarrando-lhe as mãos:
— Não bebas mais, Atanásio! Tem piedade de mim! Isto me matará de vergonha!
As pessoas que ouviam isto asseguravam que Dona Benvinda morreu, mesmo, de vergonha; outras acham, porém, que foi de umas pauladas que o marido lhe aplicou, ao regressar, alta madrugada, mais bêbado do que nunca.
O sentimento de viúvo foi, entretanto, profundíssimo. Um fato o demonstra. Certa noite, entrou ele, com um antigo companheiro, em uma das cervejarias da Brahma, e sentou-se:
— Que tomas? — perguntou o outro.
— Nada.
— Nada? Tu não tomas nada?
— Não posso, filho! — obtemperou o Atanásio. — Eu não posso beber; tu não vês que eu estou de luto?
— Mas, isso é o de menos! — tornou o outro. Há bebidas, aqui, para pessoas de luto.
E batendo na mesa, com força:
— Cerveja preta, para um!…
Por Humberto Campos, publicado em Grãos de Mostarda.
08.27.08
Crônica da abolição
BONS DIAS!
Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.
Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.
No golpe do meio (coupe do milieu, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as idéias pregadas por Cristo, há dezoito séculos restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia a que a nação inteira devia acompanhar as mesmas idéias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.
Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que é ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembéia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.
No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:
— Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que…
— Oh! meu senhô! Fico.
— Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente. Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos…
— Artura não qué dizê nada, não, senhô…
— Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.
— Eu vaio um galo, sim, senhô.
— Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.
Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.
Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.
O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu em casa, na modéstia da familia, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo, tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras: que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.
Boas noites.
Machado de Assis (Publicado na Gazeta de Notícias, em 19 de maio de 1888.)