09.11.09

– Crônica sem título –

Enviado em Crônicas tagged às 6:24 pm por Dóris


Um dia, alimentando meus passarinhos, vi uns dois ou três pardais na calçada, tentando ciscar no cimento alguma coisa para comer. Pensei “Passarinhos de raça como meus coleiras e canários não suportariam uma desproteção dessas”. Fiquei com pena e joguei um punhadinho de alpiste que restava na sacola para os pardais. No dia seguinte, estavam lá, mas eram uns oito ou dez. Joguei os restos de canjiquinha do fundo da gaiola – que acabara de limpar – para eles. Ao final de duas semanas, encontrei, sobre os caibros da varandinha, dois ninhos de pardal, apinhados de ovos. Eles se multiplicavam à porta da minha casa, embora, algumas vezes, eu já não tivesse o que lhes dar. E começaram os problemas. De vez em quando, encontrava um bocado daqueles bichinhos vira-lata dependurado nas minhas gaiolas, beliscando os cantinhos para roubar a comida dos coleiras. De tão assustado, o canário-da-terra nem cantava mais. Havia titica em todos os cantos da varanda e da área de serviço. Estava enfurecido com a situação: aquelas avezinhas infestando meu silêncio com suas revoadas , assustando meus pássaros, estragando a higiene e causando poluição visual do meu espaço , enfim, invadindo minha privacidade. Mudei-me dali para o centro da cidade e desisti de criar passarinhos.
Um dia, depois de deixar minha filha na escola, fui abordado por um menino de rua, que me pedia um trocado. Pensando nas diferenças de condições entre ele e a minha filha, que acabara de saltar do carro para a confortável escola particular em que estuda, cheguei a levar a mão ao bolso. Mas não dei esmola, lembrei-me dos passarinhos.

Luna Fernandes

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